O TEU SORRISO
O teu sorriso cresce
Como as flores silvestres
Singelas
Em campo verde aclarado ao sol
E abraços bem atados
Em múltiplas essências
Inebriando os teus sentidos…
O teu sorriso cresce
Numa volúpia sentida
Na lisura dos traços finos
Aveludados
Do teu rosto rosado
A rebrilhar ao sol
Onde imerges envolta
Em manhãs de Abril…
O teu sorriso cresce
Entre o prazer e o sonho
No ondular manso
De um mar a esbanjar luz
A transbordar as margens de ti…
Rosa Fonseca,
“Viagens interiores”
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Queria te pássaro
Nesse coração de nuvens púrpuras
Voar nelas…
...E mais de mansinho ainda
Cruzar tranquilamente em silêncio
O teu crepúsculo vermelho
Chegar a ti…
Queria num breve olhar
Errante que fosse
Sentir-te sem as neblinas
... Das noites frias
Longas de outono…
À mercê de asas negras
Esvoaçando inquietudes
Desenhando anseios…
Queria-te pássaro
Desafiando os ares
Num voo de regresso…
Rosa Fonseca, in “Outras Viagens
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Tricotar a vida
Tricotámos retalhos
De tantas cores
Tecemos sonhos
Mesclámos momentos
Adornámos a nossa manta
Ponto por ponto
Entrelaçámos vida
Sem fim previsto…
Ontem…
Vislumbrei-me
desacompanhada
E prossegui a tricotar mais retalhos
Tingindo-os de névoas
Noites humedecidas
E madrugadas em leito arrefecido…
Ergui-me cega
de desejo
De Ser…
Ser retalho azul de águas distantes...
Verde de planícies apetecidas
Uni-os com fios de sol
Que as minhas mãos desfiavam
E…
Num
rendilhado aberto
Misturei as
cores guardadas em mim
Todas as cores da memória
Aprisionadas
no meu labirinto secreto
De sonhos habitados…
Agora
A minha manta
tem retalhos
Cerzidos a pétalas aveludadas
e aromas a noites de lua cheia…
Rosa Fonseca, in “Viagem”
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SE...
Se a lua me apertasse
contra si
ao seu coração…
Permanecia no seu aconchego
distante dos frios da noite
das desilusões suaves
e esperas penosas…
Aninhava um a um
os pensamentos
em cetim lavrado a estrelas…
e pernoitava em lençóis enfeitados
a carícias
de mãos infinitamente
sedentas e tímidas
a desfolhar afetos
suavizando o perfume
espalhado no rasto da noite
Num aprazível desvendar de madrugadas…
Rosa Fonseca, in “Sentires”
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Encontro
No olhar traz a imensidão dos beijos
Fugidios ao entardecer
Quando tudo é tempo
É encontro
É longuíssima carícia…
Quando tudo é chama
É corpo
E abandono a derramar prazer…
Quando tudo se prolonga
Para lá da sua presença
E a tarde dilui-se gotejante
A convidar um passeio no seu olhar…
Rosa Fonseca,”sentires”
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...
Agora
trazes o corpo inquieto
abatido
num gemido que sufocas
arrastado…
Voa-te do olhar a esperança
da luz de cada dia
e da sede daquela
paisagem escondida
Onde tudo era fogo
Vida
Despertar…
E das mãos escorriam ternuras suculentas
espraiando-se no colo que recebia
o perfume doce do sonho…
Agora
trazes o corpo num vestido amarrotado
de pétalas murchas
e folhas descoradas
Agora
em ti
Só trazes outonos intermináveis…
Rosa Fonseca, “Sentires”
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...
A alma do livro
confunde-se com esta minha
alma alvoroçada
num rodopio veloz de palavras
a cruzar o tempo…
Num arremesso de vogais
em histórias desencontradas
decadentes de afetos…
A alma do livro
funde-se com o mundo de promessas
sobre os dias que passam
sem tempo para conjugar verbos
Sem tempo de ser…
Ser
Espera de silabas sonoras
E prosa sôfrega de enlaces.
A alma do livro confunde-se com a minha
A despertar poesia…
Rosa Fonseca
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Recordo-te
Recordo-te ainda nas arestas do pensamento
quando nele
todos os sonhos eram papoilas
e alegrias eram tesouros...
Quando todos os dias eram flores
e o fogo reacendia nos beijos
o aroma a fruta silvestre...
Recordo-te ainda na penumbra dos sentidos
quando neles
eras luz difusa...parda
e o amor se encerra
deste lado...em silêncio
sem sede de ti
sem caminhos a percorrer...
Rosa Fonseca
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Separação
A separação é constante
é aquele desconforto no peito
entranhado...nunca termina
Consome levemente os momentos do encontro
dos olhares...os primeiros que tivemos
Ter-te em cada espera como a primavera as flores
e desenhar o teu rosto mesmo por instantes
assim na sombra
na ausência
na metade...
ter a demora do teu corpo no meu
nesta geografia perdida
talvez imaginária...
como voz quente que afaga os sentidos...
e adoça o movimento do olhar que te espera
que te acena num gesto secreto
intimo
nosso
Separação é voltar a ter-te sem nunca sentir distancia...
é a dor suave do reencontro...
Rosa Fonseca
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citações
"O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o príncipio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida."
Fernando Pessoa
